Marcos Joaquim Gonçalves Alves: o advogado de todos os governos

O advogado Marcos Joaquim Gonçalves Alves foi investigado durante quase cinco anos sob suspeita de ter intermediado uma propina de R$ 9 milhões destinada ao deputado federal Sérgio Souza (MDB-PR). A acusação: impedir que ex-presidentes de fundos de pensão depusessem na CPI que investigava desvios de bilhões. Em outubro de 2019, o STF bloqueou R$ 3,2 milhões de seus bens. Mensagens encontradas pela Polícia Federal em celular de um ex-ministro de Temer revelaram que Marcos Joaquim negociava petróleo, refinarias da Petrobras e até maconha com o filho de um dos líderes do governo Bolsonaro. Apesar disso, em maio de 2023, o ministro Kassio Nunes Marques arquivou a investigação — “quase cinco anos e nada ficou comprovado”, segundo sua sentença.

Meses antes desse arquivamento, Marcos Joaquim doou R$ 100 mil ao PT na campanha presidencial de Lula. Hoje, em junho de 2026, ocupa o cargo de Diretor de Relações Governamentais no CESA, a principal organização das sociedades de advogados do Brasil, e é Vice-presidente da Comissão Especial de Direito do Petróleo da Ordem dos Advogados do Brasil. Nenhuma lei obriga Marcos Joaquim a divulgar quem representa ou quais clientes o pagam por suas gestões de influência junto ao governo federal.

Quem é Marcos Joaquim e por que isso importa

Marcos Joaquim Gonçalves Alves é advogado especializado em direito tributário pela PUC/SP, conforme registrado em sua biografia profissional no portal JOTA, plataforma de notícias jurídicas. Fundou em 2016, junto com seus sócios, a M.J. Alves e Burle, escritório que se descreve como especializado em “advocacy fiscal e regulatório” em setores de infraestrutura, agronegócio e esportes.

O termo “advocacy” em seu slogan corporativo é estratégico. “Advocacy” significa, genericamente, defesa de interesses. Pode significar advocacia tradicional — representação jurídica em juízo. Mas em Brasília, “advocacy” frequentemente significa algo adicional: intermediação junto ao governo, relações governamentais, lobbying. A M.J. Alves e Burle se posiciona nessa zona — não é apenas escritório de advogados litigantes; é também operador de influência em órgãos públicos.

A documentação jornalística e judicial que o persegue começa a aparecer no final dos anos 2010, quando descritores como “um dos principais lobistas de Brasília” passam a acompanhá-lo em reportagens da imprensa. O Brasil não regulamenta o lobby — não existe cadastro obrigatório de lobistas, nem transparência sobre quem representam, nem limites legais às atividades de intermediação de influência política. Uma pessoa pode ocupar simultaneamente cargo em entidade profissional (OAB, CESA), exercer advocacia privada, atuar como lobista junto a ministérios, e ninguém tem obrigação legal de saber para quem trabalha além da advocacia tradicional.

Esta lacuna regulatória não é acidental. O Brasil não tem lei de lobby desde o regime militar — nunca foi aprovada lei que obrigasse transparência nesse setor. Outros países democráticos têm: os EUA regulamentam o lobby desde 1946; a União Europeia exige registro de lobistas desde 2008; México e Argentina têm leis desde 2010 e 2015, respectivamente. No Brasil, a discussão existe no Congresso, mas projetos nunca avançam — há resistência de múltiplos atores que se beneficiam do vácuo.

Este é o contexto em que Marcos Joaquim transita. Não é um bandido confesso — é um operador político que sobreviveu a duas investigações federais de grande escopo (Grand Bazaar, Desintegração) e voltou a ocupar posições de poder dentro do sistema jurídico e de relações governamentais, sem transparência obrigatória sobre seus clientes, negociações ou fontes de renda. Ele é legal. Mas a legalidade dele expõe uma lacuna na democracia brasileira.

A delação de Funaro e a Operação Grand Bazaar

Em 2017, Lúcio Bolonha Funaro, doleiro investigado em operações de lavagem de dinheiro, fez delação premiada à Polícia Federal. Segundo o relato que chegou à imprensa em outubro de 2019, Funaro afirmou que o deputado federal Sérgio Souza (MDB-PR), relator da CPI dos Fundos de Pensão, havia cobrado R$ 9 milhões para não convocar dois ex-presidentes de fundos de pensão — Wagner Pinheiro, do Petros, e Antônio Carlos Conquista, do Postalis — cujos depoimentos poderiam exibir desvios nos fundos.

O contexto era sensível. A CPI dos Fundos de Pensão investigava desvios de bilhões em dois dos maiores fundos de pensão do país, Petrobras Petrobrás (Petros) e Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Postalis). Se os ex-presidentes desses fundos depusessem, poderiam fornecer detalhes sobre operações, intermediários e pessoas envolvidas em esquemas de desvio. A delação de Funaro sugere que havia interesse em silenciar esses depoimentos — e que esse silenciamento tinha preço.

De acordo com o relato de Funaro consultado pela reportagem via Seu Dinheiro (Estadão Conteúdo) em outubro de 2019, o operador de propinas Marcos Joaquim Alves disse que Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e figura central em esquemas de corrupção documentados em anos anteriores, sugeriu-lhe que procurasse o advogado Marcos Joaquim Gonçalves Alves, porque era “amigo de Sérgio Souza”. Cunha já havia sido afastado de suas funções em 2015 — denunciado por operações de lavagem de dinheiro e esquemas de corrupção — mas seu acesso a intermediários políticos permanecia ativo.

Funaro alegou ter se encontrado com Marcos Joaquim em uma casa no Lago Sul, em Brasília, junto com Arthur Machado (dono da Ágora corretora, uma empresa de negociação de ativos), o próprio Sérgio Souza e um de seus assessores, onde a propina de R$ 9 milhões teria sido acertada. O local — Lago Sul, bairro nobre de Brasília onde residem figuras políticas de destaque — é simbólico de um padrão de negociação privada entre operadores de alto nível.

A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em 18 locais espalhados em quatro cidades — três em São Paulo, quatro no Rio de Janeiro, cinco em Brasília e seis em Curitiba — conforme documentado pelo portal Congresso em Foco em outubro de 2019. A operação batizada “Grand Bazaar” mobilizou recursos significativos e evidencia que a investigação era de escopo amplo, envolvendo múltiplos suspeitos em diferentes estados.

Durante essas operações, os investigadores apreenderam documentação que incluía um caderno de anotações contendo a sigla “MJ” — iniciais de Marcos Joaquim. A presença dessa sigla em documentos de Funaro era evidência circunstancial: sugeria contato entre os dois homens e possivelmente registrava reuniões ou acordos. Mas, como viria a se revelar 4 anos depois, a assinatura “MJ” em um caderno não seria suficiente para condenação.

Segundo Seu Dinheiro, Funaro relatou que o pagamento da propina havia sido feito via doleiro Tony, entre agosto e setembro de 2015, em espécie — operação clássica de blanqueamento em que dinheiro é entregue em cédulas de grande valor, sem rastreamento. Essa descrição de método de pagamento é característica de operações de corrupção em Brasília: dinheiro vivo, intermediários discretos, sem registros que conectem o pagador ao recebedor.

E, de forma crucial para a narrativa da delação, o depoimento de Wagner Pinheiro (ex-presidente do Petros) que estava marcado para ocorrer na CPI dos Fundos de Pensão foi desmarcado no dia que estava previsto. A coincidência temporal — acordo de propina em agosto/setembro de 2015, depoimento desmarcado logo após — é o tipo de correlação que investigadores buscam como evidência indireta de que um acordo foi de fato executado.

Marcos Joaquim, em sua defesa registrada pelo Senado Federal em outubro de 2019, afirmou estar “à disposição das autoridades com total lisura e transparência” e negou ter participado da reunião mencionada por Funaro. Ofereceu-se para colaboração, mantendo a porta aberta ao diálogo institucional — postura típica de defesa em casos em que o objetivo é evitar condenação por meio de contato com o sistema de justiça.

O Instituto Advocacy Brasil, escritório de advocacia cujo endereço aparecia associado a Marcos Joaquim Alves, foi objeto da operação de busca e apreensão — mas o próprio escritório de advocacia dele foi preservado, segundo a mesma fonte do Senado. Essa distinção (busca no Instituto, preservação do escritório) sugere que os investigadores tinham interesse em documentação específica do Instituto, possivelmente relacionada a operações e intermediações.

Os diálogos sobre petróleo e refinarias

Um ano depois, em agosto de 2020, a Crusoé publicou uma reportagem com título “Lobby escancarado”, divulgando que a Polícia Federal havia encontrado mensagens no celular de Fernando Coelho Filho durante a Operação Desintegração. Fernando Coelho Filho é deputado federal pelo DEM de Pernambuco, ex-ministro das Minas e Energia no governo Michel Temer (2016–2018), e — fator politicamente relevante — é filho de Fernando Bezerra Coelho, que na época era líder do governo Jair Bolsonaro no Senado.

A Operação Desintegração havia sido lançada em setembro de 2019, apenas dias depois da Operação Grand Bazaar. Enquanto a Grand Bazaar virava pelo lado da CPI dos Fundos de Pensão e Sérgio Souza, a Desintegração focava em outro esquema: supostamente, pagamentos de R$ 5,5 milhões em propina ao próprio Fernando Bezerra Coelho, líder governista. A operação evidencia que, naquele período (2019–2020), a PF e o Ministério Público Estadual tinham mapeado um padrão de intermediação de propinas envolvendo figuras de alto nível no governo federal — não era caso isolado, mas rede.

As mensagens revelavam, segundo Crusoé, “intensas tratativas comerciais” entre Fernando Coelho Filho e Marcos Joaquim. O escopo desses negócios era amplo: extração mineral, petróleo, maconha, operações envolvendo estádios de futebol (incluindo negociação sobre direitos de naming da Arena Corinthians), refinarias da Petrobras e operações financeiras internacionais. O leque de atividades sugere não operações isoladas, mas um portfólio completo de intermediações que um lobista como Marcos Joaquim poderia oferecer a um ex-ministro e deputado federal em posição de influência.

Entre os detalhes documentados pela PF estava um empréstimo de avião que Marcos Joaquim teria feito a Fernando Coelho Filho. A prática de emprestar ativos de alto valor — aviões, helicópteros, casarões em regiões valorizadas — é documentada em esquemas de corrupção como forma de intermediação de favores sem deixar rastro de dinheiro direto. Um avião emprestado é transação que pode ser registrada como “empréstimo” entre pessoas de negócio, dificilmente rastreável como benefício corrupto em análise de registros bancários.

A reportagem de Crusoé também registra o timing: essas mensagens foram encontradas durante a Operação Desintegração, que investigava supostos pagamentos de propina a Fernando Bezerra Coelho, pai de Fernando Coelho Filho. Isso significava que Marcos Joaquim estava oferecendo intermediação não apenas a deputados federais (Sérgio Souza), mas também aos filhos de líderes governistas em posição de máxima influência política.

Ainda mais relevante: os temas dos negócios negociados — petróleo, refinarias da Petrobras, extração mineral — envolvem setores que dependem diretamente de concessões, licenças e regulamentação do governo federal. Um ex-ministro das Minas e Energia como Fernando Coelho Filho, mesmo deputado no período investigado, mantém contatos significativos em órgãos que regulam esses setores — Ministério de Minas e Energia, Agência Nacional de Petróleo (ANP), órgãos de licenciamento ambiental. A oferta de intermediação sobre esses temas tem valor potencial mensurado para quem busca obter licenças ou concessões do governo.

A menção a maconha nos diálogos é particularmente significativa: em 2020, o Brasil não havia regulamentado o mercado de cannabis para fins comerciais ou industriais. Qualquer negociação envolvendo maconha seria, por definição, operação em zona cinzenta ou ilícita — sugerindo que Marcos Joaquim estava disposto a intermediar não apenas negócios legítimos e regulados, mas também atividades potencialmente ilícitas ou sem enquadramento legal.

Quando procurado pela Crusoé, Marcos Joaquim negou haver “irregularidades” nos diálogos — palavra que escolhe cuidadosamente. Não forneceu detalhes sobre qual era a natureza específica das negociações, para quem trabalhava, qual era seu interesse financeiro nesses negócios ou quais foram os resultados. A resposta é classicamente defensiva: negar sem explicar, mantendo silêncio sobre os fatos específicos documentados pela polícia.

A investigação de cinco anos e o arquivo sem condenações

A investigação que começou com a delação de Funaro em 2017 se estendeu até maio de 2023 — quase seis anos. Durante esse período, o valor de R$ 3,2 milhões de bens de Marcos Joaquim permaneceu bloqueado, conforme decisão do ministro Celso de Mello do STF em outubro de 2019.

Em maio de 2023, o ministro Kassio Nunes Marques do STF proferiu decisão arquivando a investigação. De acordo com reportagem do Conjur em 15 de maio de 2023, Kassio determinou o arquivamento contra sete investigados: o próprio Sérgio Souza (o deputado acusado de receber a propina), Marcos Joaquim Gonçalves Alves (o intermediário), Luciano Sato (assessor parlamentar), Marcos Stamm (ex-assessor), Milton Lyra (operador financeiro), Antônio Conquista (ex-presidente do Postalis) e Wagner Pinheiro (ex-presidente do Petros).

A fundamentação da decisão foi explícita. A PGR havia concluído, segundo o Conjur, que “além dos relatos do colaborador [Funaro], não foram colacionados aos autos outros elementos de prova”. Isso significa que, do ponto de vista do sistema de justiça, a acusação se baseava unicamente na delação de um único doleiro — sem provas documentais complementares que confirmassem a versão dele.

Kassio foi ainda mais direto. Segundo o Conjur, o ministro escreveu: “não restou evidenciada qualquer interferência indevida” e, em passagem crucial: “foram quase cinco anos de investigação e nada ficou comprovado”. O arquivo, juridicamente falando, não significa absolvição — significa simplesmente o encerramento da investigação por falta de fundamentação para prosseguir.

O caderno com a sigla “MJ” apreendido na operação de 2019, apesar de ser evidência circunstancial, não foi suficiente para demonstrar “interferência indevida” conforme requerido pela lei para uma condenação. Não havia como provar que o “MJ” escrito nas anotações de Funaro referia-se especificamente a Marcos Joaquim ou qual era o contexto exato daquela anotação — o caderno, sozinho, não é contrato, não é mensagem, não é transferência bancária.

A ausência de provas documentais independentes da delação de Funaro foi crucial. Delações premiadas são ferramentas importantes na investigação de esquemas de corrupção — permitem que operadores menores revelem redes maiores —, mas depender unicamente da delação de um informante é arriscado. Pessoas podem mentir por motivos pessoais, para incriminar rivais, ou para obter benefícios. É por isso que lei de processo penal exige, em geral, corroboração: evidência além do relato verbal de uma única pessoa.

Neste caso, a investigação de “quase cinco anos” procurou corrobora, mas não encontrou. Não há conta bancária ligando Marcos Joaquim ao pagamento de R$ 9 milhões. Não há áudio de reunião ou acordo. Não há testemunha independente descrevendo o encontro no Lago Sul. Não há contato entre Sérgio Souza e Marcos Joaquim documentado além da alegação de Funaro. O resultado: investigação encerrada, figuras não condenadas, voltam à vida pública.

O trânsito entre governos — Cunha, Bolsonaro, Lula

A trajetória de Marcos Joaquim demonstra um padrão: ele mantém acesso permanente ao poder independente de quem governa — não é preso a ideologia, mas a relações institucionais duradouras. Seu primeiro aparecimento documental em reportagens investigativas é vinculado a Eduardo Cunha (PMDB, depois MDB), quando Cunha era ex-presidente da Câmara — um político que passou de centro-direita a oposição durante a maior parte dos anos 2010. Marcos Joaquim era seu advogado e consultor de estratégia nos momentos em que Cunha enfrentava investigações por operações de lavagem de dinheiro e corrupção.

Depois, entre 2019 e 2020, durante o governo Jair Bolsonaro (de extrema-direita), os diálogos de Marcos Joaquim com Fernando Bezerra Coelho (pai) — líder do governo no Senado — e Fernando Coelho Filho (filho) documentam seu acesso imediato ao núcleo do poder executivo, sem qualquer transição ou espaço de tempo. A velocidade da transição é relevante: dentro de meses após o arquivo de operações contra Marcos Joaquim em 2019, ele já está negociando petróleo e refinarias com aliados diretos do governo Bolsonaro. Não há período de afastamento. Não há redução de visibilidade. O acesso é contínuo.

As negociações sobre petróleo, refinarias e minerais envolvem a esfera de influência direta de um governo que priorizava relações com empresas extractivistas — empresas cujos interesses dependem de licenças ambientais, concessões, contratos com Petrobras. Um lobista conversando sobre esses temas com filho de líder governista é conversas de alto valor político.

O passo seguinte marca uma transição mais deliberada. Em setembro de 2022, ainda durante o governo Jair Bolsonaro (mas em seu final, após a derrota nas eleições de outubro), Marcos Joaquim fez uma doação de R$ 100 mil ao PT durante um jantar de apoio à candidatura de Lula em São Paulo, conforme reportado pela revista IstoÉ em setembro de 2022. A doação foi feita em ambiente de advogados criminais ligados ao grupo Prerrogativas — coletivo de defensores que trabalharam em Operação Lava Jato e apoiava a candidatura de Lula como resposta ao governo anterior.

O timing dessa doação é notável. Marcos Joaquim era homem de Bolsonaro meses antes — negociando em seu círculo próximo. Meses depois, está doando para o partido que o derrotaria. Essa fluidez não é acidental — é estratégica. É a escolha de se posicionar do lado vencedor antes da vitória ser garantida; é hedge político de médio prazo.

A cronologia é então: doação ao PT em setembro de 2022; Lula eleito em outubro de 2022; governo Lula toma posse em janeiro de 2023; Kassio Nunes Marques (ministro do STF já em suas funções) arquiva a investigação contra Marcos Joaquim em maio de 2023 — menos de cinco meses após a posse do novo governo. O intervalo é suficientemente curto para ser notado.

Não há evidência documental de que a doação influenciou a decisão de Kassio. Mas a sequência factual é registrada como dado histórico: um advogado investigado Marcos Joaquim por intermediar propina, que teve R$ 3,2 milhões bloqueados por ordem de um STF anterior, doou para o partido que assumiria o governo, e viu sua investigação arquivada poucos meses depois, por falta de provas — sob um STF cuja composição é influenciada pelo governo em exercício. A coincidência é suficientemente peculiar para justificar documentação.

Desde junho de 2026, Marcos Joaquim é Diretor de Relações Governamentais do CESA (Centro de Estudos das Sociedades de Advogados do Brasil) — a principal entidade de representação dos escritórios de advocacia no país. É também Vice-presidente da Comissão Especial de Direito do Petróleo da OAB Federal. Essas posições não são simbólicas — são lugares onde decisões sobre regulamentação, temas legislativos, posições da profissão são definidas. Um Diretor de Relações Governamentais do CESA tem acesso institucionalizado ao Ministério da Justiça, ao Congresso, às comissões relevantes do Senado e Câmara. Um Vice-presidente da Comissão de Direito do Petróleo da OAB Federal trata diretamente com Pré-Sal Brasil, Ministério de Minas e Energia, BNDES.

Quem Marcos Joaquim representa perante essas instituições? Quem o paga por sua gestão de influência? O Brasil não obriga Marcos Joaquim a responder. Não existe lei de lobby no país que exija cadastro, transparência ou divulgação de clientes. Essa é a zona cinzenta permanente onde ele opera.

O contraditório

Marcos Joaquim nega as acusações de forma estratégica — não ataca frontalmente, nega o dito pelas fontes e oferece abertura ao diálogo com autoridades. Segundo documento do Senado Federal de outubro de 2019, afirmou estar “à disposição das autoridades com total lisura e transparência” e negou participação na reunião mencionada por Funaro no Lago Sul. Essa formulação — “à disposição com transparência” — é linguagem de defesa padrão em casos sob investigação: não confronta, oferece colaboração, mantém as portas abertas para negociação com o sistema de justiça.

Quando a Crusoé o procurou sobre os diálogos com Fernando Coelho Filho, negou “irregularidades” — palavra que escolhe cuidadosamente para manter ambiguidade. Sem fornecer detalhes sobre a natureza específica das negociações, para quem trabalhava ou qual era seu interesse nesses negócios, responde apenas “não há irregularidades”. Uma negação sem explicação é tecnicamente defesa, mas oferece pouca informação ao leitor.

Sua defesa formal, representada pelo advogado Roberto Podval, declarou à revista IstoÉ em setembro de 2022 que as acusações “não foram provadas” — uma formulação legal precisa que reconhece a existência das acusações mas nega seu fundamento probatório. Essa posição foi posteriormente validada pela decisão de Kassio Nunes Marques em maio de 2023, que arquivou o inquérito. A defesa não precisou argumentar mais; a decisão do STF fez o trabalho.

A PGR, em sua conclusão registrada no Conjur, afirmou que “além dos relatos do colaborador, não foram colacionados aos autos outros elementos de prova” — reconhecendo explicitamente que a acusação se baseava unicamente em testemunho de um colaborador (Funaro) sem confirmação documental independente. Essa conclusão da própria acusação (a PGR) é a base sobre a qual Kassio fundamenta o arquivo. Não é defesa vigorosa que força o STF a liberar Marcos Joaquim — é o próprio órgão acusador que diz não ter provas suficientes.

Não foram encontradas declarações públicas de Marcos Joaquim sobre sua doação de R$ 100 mil ao PT, nem sobre quem representa atualmente perante agências federais, nem explicações públicas sobre os negócios documentados pela Polícia Federal em diálogos com Fernando Coelho Filho. O silêncio sobre essas questões é, em si, dado factual — a ausência de resposta é também informação.

O que ainda não se sabe

Várias questões permanecem sem resposta nas fontes consultadas. Quem Marcos Joaquim representava quando negociava petróleo e refinarias com Fernando Coelho Filho em 2020? Esses negócios foram concluídos? Qual era o interesse comercial ou financeiro de Marcos Joaquim em intermediar negociações sobre setores estratégicos do país?

O valor de R$ 3,2 milhões bloqueado pelo STF em outubro de 2019 foi desbloqueado? Se sim, quando e por qual decisão? A permanência desse bloqueio por quatro anos (2019–2023) enquanto a investigação decorria é uma forma de coerção executada pelo poder público — mas seu fim é marcado por silêncio processual.

Existe relação pessoal ou profissional anterior entre Marcos Joaquim e o ministro Kassio Nunes Marques que pudesse ter influenciado a decisão de arquivo? Essa informação não está disponível em registros públicos ou em decisões judiciais. O arquivo ocorre, sim, dentro do processo legal — mas sua timing (9 meses após doação ao PT, 5 meses após posse de governo cujo apoio Marcos Joaquim ajudou a financiar) é registrada para análise histórica.

O Instituto Advocacy Brasil, mencionado como objeto da busca e apreensão em 2019, continua operando em 2026? Qual é sua estrutura acionária, quem são seus clientes, quais são suas atividades? A informação não está disponível — não existe registro público obrigatório.

Marcos Joaquim é hoje Vice-presidente da Comissão de Direito do Petróleo da OAB Federal. Em seu cargo anterior, na mesma comissão, quem estava? Quais são os clientes dessa comissão — quais empresas e setores se beneficiam de suas recomendações? Nenhuma obrigação legal de divulgação existe.

Mais amplamente: qual seria o impacto de uma lei de lobby no Brasil que exigisse transparência sobre representação junto ao governo federal? Exigiria cadastro de lobistas, divulgação de clientes, limite de doações políticas por pessoas envolvidas em intermediação. Quantos Marcos Joaquins operam em zona cinzenta permanente na capital, sem regulamentação ou oversight público?

A ausência de legislação de lobby no Brasil significa que figuras investigadas por intermediação de propina podem, após arquivamento de inquérito, voltar a ocupar posições de influência sem qualquer obrigação de transparência sobre quem representam ou como ganham suas vidas. Isso é legal — mas não significa que seja adequado para uma democracia que debate combate à corrupção.

Box de Fontes

  • Senado Federal / Agência Senado — “Ex-advogado de Cunha tem R$ 3,2 milhões bloqueados” — 22 de outubro de 2019 — https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/608093/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y
  • Seu Dinheiro (Estadão Conteúdo) — “Relator da CPI dos fundos de pensão cobrou para não incluir nomes, diz delator” — 21 de outubro de 2019 — https://www.seudinheiro.com/2019/fundos-de-pensao/relator-da-cpi-dos-fundos-de-pensao-cobrou-para-nao-incluir-nomes-diz-delator/
  • Congresso em Foco — “Deputado Sérgio Souza é alvo da PF por propinas na CPI dos Fundos de Pensão” — 21 de outubro de 2019 — https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/38821/deputado-sergio-souza-e-alvo-da-pf-por-propinas-na-cpi-dos-fundos-de-pensao
  • Crusoé — “Lobby escancarado: PF acha diálogos entre filho do líder do governo e advogado investigado” — 11 de agosto de 2020 — https://crusoe.com.br/diario/lobby-escancarado-pf-acha-dialogos-entre-filho-do-lider-do-governo-de-lula-e-advogado-investigado/
  • O Antagonista — “PF investiga diálogos entre filho de líder do governo e advogado ligado a Eduardo Cunha” — 2020 — https://oantagonista.com.br/brasil/pf-investiga-dialogos-entre-filho-de-lider-do-governo-e-advogado-ligado-a-eduardo-cunha/
  • IstoÉ — “Ligações perigosas: investigados em operações da PF, empresários voltam à cena política” — 30 de setembro de 2022 — https://revista.istoe.com.br/ligacoes-perigosas-6
  • Conjur — “Nunes Marques arquiva inquérito contra relator da CPI dos Fundos de Pensão” — 15 de maio de 2023 — https://www.conjur.com.br/2023-mai-15/nunes-marques-arquiva-inquerito-relator-cpi-fundos-pensao/
  • JOTA — Perfil de Marcos Joaquim Gonçalves Alves — https://www.jota.info/autor/marcos-joaquim-goncalves-alves
  • CESA — Centro de Estudos das Sociedades de Advogados — Perfil de Marcos Joaquim Gonçalves Alves — https://cesa.org.br/membro/marcos-joaquim-goncalves-alves-e-burle-advogados-e-consultores/
  • M.J. Alves e Burle Advocacy Brasil — Perfil profissional e equipe — https://mjab.adv.br/equipe/integrantes/marcos-joaquim-goncalves-alves

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