Entre janeiro e abril de 2024, Banco Master concedeu R$ 336 milhões em empréstimos a acionistas da BioMM, como Lucas Kallas da Cedro Mineração. A empresa é farmacêutica brasileira de capitalização recente. No mesmo período, as ações da empresa subiram 300%, de R$ 5,75 para R$ 17,80. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga se houve conluio coordenado para manipular os preços das ações. Daniel Vorcaro, controlador de Banco Master, foi preso em novembro de 2025 pela Polícia Federal sob acusações de fraude e lavagem de dinheiro envolvendo operação de bilhões de reais. A liquidação de Banco Master pelo Banco Central ocorreu no mesmo mês. BioMM emitiu comunicado em 20 de julho de 2026 negando relação comercial com a instituição financeira, apenas após reportagens de mídia exporem os detalhes dos empréstimos e seus prazos suspeitos.
O caso replicava padrão de operação investigado pela CVM em empresa paralela, Ambipar, onde Vorcaro também estava envolvido. Em Ambipar, valorização de 883% das ações ocorreu entre junho e agosto de 2024, igualmente após operações de financiamento estruturadas. A investigação do órgão regulador aponta possível coordenação entre agentes financeiros e acionistas para inflar preços artificialmente, utilizando recursos de bancos para adquirir ações em momento de pico especulativo.
Banco Master, durante controle de Vorcaro entre 2019 e 2024, apresentou crescimento explosivo. Patrimônio líquido passou de R$ 200 milhões em 2019 para R$ 4,7 bilhões em 2024, crescimento de 2.250% em cinco anos. Portfólio de crédito expandiu de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões no mesmo período. O banco financiava sua expansão através de emissão acelerada de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com retornos ofertados em até 130% da taxa CDI, significativamente acima da média do mercado.
Modelo de operação de Master atraía poupadores procurando retornos mais elevados. Banco Central, entretanto, identificou problemas estruturais. Em novembro de 2024, autoridade monetária alertou Daniel Vorcaro que ele tinha 180 dias para sanar problemas de liquidez e governança corporativa do banco. Menos de um ano depois, BC decretou liquidação extrajudicial de Master. Estimativas indicam perda de R$ 41 bilhões ao Fundo de Garantia de Crédito (FGC), fundo que protege depósitos de pequenos poupadores.
BioMM é empresa farmacêutica que opera no mercado brasileiro e emerge como potencial player em segmento de medicamentos biológicos. Em 2024, empresa realizou aumento de capital em condições de mercado, captando R$ 217 milhões entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024. Empresa emitiu ações a R$ 5,75 por unidade. Meses depois, mesmas ações atingiriam valor de R$ 17,80, amplificação de 209% em cotação, contribuindo para valorização geral de 300% do ativo no período.
Operação de financiamento de Banco Master a acionistas de BioMM iniciou imediatamente após fechamento de aumento de capital. Entre janeiro e abril de 2024, Vorcaro e instituição sob seu controle liberaram recursos significativos para quatro pessoas físicas e uma pessoa jurídica ligadas a BioMM. Estrutura de operação apresentava características que despertaram interesse de órgãos reguladores: sincronização entre concessão de empréstimos, eleições ao conselho administrativo e valorização de ações.
Walfrido dos Mares Guia, fundador de BioMM, recebeu R$ 45 milhões em janeiro de 2024. Empresa controladora do grupo de Mares Guia, Samos Participações, recebeu R$ 10,2 milhões. André Emrich, filho do fundador, recebeu R$ 10,3 milhões. Pedro Mesquita, profissional com experiência prévia em XP Investimentos e RB Capital, recebeu R$ 5,1 milhões em janeiro de 2024. Em 21 de abril de 2024, Mesquita recebeu segundo empréstimo, desta vez R$ 10,3 milhões. Nove dias depois, em 30 de abril de 2024, Mesquita foi eleito para o conselho de administração de BioMM. Timing apertado entre financiamento e ascensão corporativa despertou questionamentos de reguladores.
Lucas Kallas, investidor que detinha 8% do capital de BioMM, recebeu maior empréstimo da série. Em 16 de abril de 2024, Banco Master concedeu R$ 254 milhões a LPK Participações, empresa controladora de Kallas. Empréstimo ocorreu dias antes de assembleia que elegeria novos conselheiros. Timing posicionava Kallas com liquidez significativa para adquirir mais ações em mercado secundário, caso desejasse ampliar participação.
Total de R$ 336 milhões emprestados superava significativamente valor total do aumento de capital realizado por BioMM apenas dois meses antes. Se valor captado pela empresa em aumento de capital foi R$ 217 milhões, e R$ 336 milhões foram emprestados a acionistas para compra potencial de ações no mercado, estrutura sugeria financiamento de demanda especulativa por ações da empresa com recursos bancários de Vorcaro.
Questão subjacente era clara: de onde provinham recursos de Banco Master? Instituição emitia CDBs em volume acelerado, oferecendo retornos elevados a poupadores. Recursos de depósitos de pequenos poupadores eram canalizados para empréstimos estruturados a acionistas de empresas de interesse de Vorcaro, onde próprio Vorcaro ou seus fundos também investiam. Quando preços das ações subiam, todos ganhavam. Poupadores recebiam seus retornos de CDB. Acionistas eleitos com apoio de Master recebiam ganhos de capital. Banco Master ganhava spreads de intermediação.
Ações de BioMM apresentaram valorização acelerada durante período de janeiro a maio de 2024. Emitidas a R$ 5,75, atingiram R$ 17,80 em 3 de maio de 2024. Valorização coincidiu com dois fatores: (1) catalisador legítimo de negócio — anúncio em abril de 2024 de acordo entre BioMM e Biocon (farmacêutica indiana) para distribuição de similar ao Ozempic no Brasil, medicamento para diabetes e controle de peso com demanda crescente globalmente; (2) especulação de mercado alimentada por empréstimos de Master a acionistas.
Anúncio de Ozempic gera alta legítima? Sim. Medicamento é blockbuster farmacêutico com mercado global de bilhões de dólares. Acordo de distribuição em Brasil para empresa de pequena capitalização como BioMM constitui notícia positiva e justifica movimentação de preço. Estudos de mercado indicam que anúncio como esse pode gerar valorização de 30% a 60% em ações de empresas farmacêuticas pequenas.
Porém, valorização de 300% em 3 meses sugere componente especulativo além de fundamentos. Em abril de 2024, análise técnica de InvestingPro identificou ações de BioMM como significativamente sobrevalorizadas. Analistas alertaram mercado sobre discrepância entre preço cotado e valor fundamentalista estimado. Mercado ouviu: queda de 42% nas ações de BioMM ocorreu após alerta de sobrevalorização.
Padrão operacional replicava estrutura investigada pela CVM em Ambipar entre junho e agosto de 2024. Naquele caso, três fundos ligados a Banco Master — Esna, Texas e Kyra, administrados por Trust e gerenciados por DTVM de Maurício Quadrado — realizaram compra coordenada de 25,1 milhões de ações de Ambipar durante três meses. Operação consumiu R$ 754 milhões. Ações da empresa explodiram 883% em valor.
Pessoas investigadas em Ambipar eram: Daniel Vorcaro (controlador de Master), investidor Nelson Tanure (sócio repetido de Vorcaro em múltiplos negócios) e Tercio Borlenghi Junior (CEO de Ambipar). CVM apura se três atuaram em coordenação para inflar artificialmente preço de ações de Ambipar com objetivo de beneficiar-se de ganho especulativo.
Estrutura de Ambipar, conforme investigação de CVM, operava assim: (1) fundos controladoras criadas ou ligadas a Vorcaro; (2) estes fundos recebem recursos bancários ou de terceiros interessados em ganho especulativo; (3) fundos realizam compra coordenada e volumosa de ações de empresa alvo; (4) aumento de volume de compra infla preço artificialmente; (5) quando preço alcança pico, controladores e beneficiários vendem com ganho massivo; (6) mercado descobre manipulação, preço colapsa, poupadores ficam com prejuízo.
Em BioMM, sequência era similar: (1) Banco Master, controlado por Vorcaro, concede R$ 336 milhões em empréstimos a acionistas; (2) acionistas compram ações ou consolidam participação com liquidez do empréstimo; (3) compra coordenada aumenta demanda por ações; (4) preço sobe, especialmente após anúncio legítimo de Ozempic; (5) queda posterior de 42% sugere reversão de especulação.
Investigação de CVM em BioMM estava em andamento em julho de 2026, conforme comunicações técnicas do órgão regulador. Investigadores examinavam se Daniel Vorcaro, eventuais investidores ligados a Vorcaro (como Nelson Tanure, comum a ambos os casos), e potencialmente CEO ou executivos de BioMM coordenaram esforços para inflar preços artificialmente. Metodologia de investigação envolvia análise de operações bancárias, correspondência entre datas de empréstimos e compras de ações, depoimentos de investigados e análise de comunicações privadas.
Paralela ao caso de BioMM, investigação de CVM em Ambipar avançava. Relatórios técnicos da comissão apontavam “conluio” entre Vorcaro, Tanure e Borlenghi para manipular mercado. Termo “conluio” em linguagem regulatória significa coordenação deliberada entre partes para executar operação proibida. Investigadores afirmavam ter evidências de comunicações entre investigados discutindo estratégia de compra de ações, timing de operações e divisão de ganhos.
Em novembro de 2025, sequência de eventos acelerou. Polícia Federal, após monitoramento de longo prazo, executou operação contra Daniel Vorcaro e núcleo de pessoas ligadas a esquema de fraude em Banco Master. Vorcaro foi preso. Comunicações telefônicas e digitais apreendidas durante operação revelaram detalhes de operações criminosas. Investigadores identificaram núcleo criminal composto por Vorcaro (líder da operação), Fabiano Zettel (responsável operacional de pagamentos e transferências), Luiz Phillipi Mourão (coordenava vigilância e intimidação de adversários) e Marilson Roseno (policial federal aposentado responsável por coleta de informações e vigilância).
Acusações contra Vorcaro incluíam fraude (oferecimento de CDBs com retornos não viáveis, usando novos depósitos para pagar retornos antigos), lavagem de dinheiro (movimentação de recursos ilícitos através de estrutura bancária), estelionato e potencialmente manipulação de mercado de capitais. Bloqueio de bens decretado por STF a pedido de PF alcançou R$ 5,7 bilhões em ativos, imóveis e participações acionárias ligadas a Vorcaro.
Banco Central, simultaneamente, decretou liquidação extrajudicial de Banco Master em novembro de 2025. Processo de liquidação envolve transferência de ativos da instituição para gestor público, avaliação de passivos, e distribuição proporcional entre credores. Pequenos depositantes recebem proteção total do FGC até limite de R$ 250 mil por depositante por instituição. Deposita maiores enfrentam prejuízo parcial ou total conforme valores recuperados na liquidação.
Perda ao FGC estimada em R$ 41 bilhões representava escala massiva de insolvência. Para contexto, orçamento anual do FGC é de aproximadamente R$ 10 bilhões em contribuições, arrecadadas de bancos operantes. Insolvência de Master consumiu mais de 4 anos de arrecadação integral do fundo. FGC executaria resgates através de parcelamento multianual de seus recursos disponíveis.
Vorcaro, em comunicações posteriores através de defesa legal, alegava que liquidação de Master resultava não de insolvência intrínseca, mas de “ataque combinado” de grandes bancos e setores do Banco Central interessados em eliminar concorrente que crescia aceleradamente. Alegava estar resolvendo problemas de liquidez e que operações problemáticas eram exageradas. Nega participação em fraudes ou manipulação de mercado.
Banco Central e especialistas em supervisão financeira, porém, apontavam que modelo de Master era intrinsecamente arriscado: instituição financeira pequena, altamente alavancada, dependente de FGC, oferecendo retornos acima do mercado, em modelo que só era sustentável se crescimento continuasse indefinidamente. Crescimento de 2.250% em 5 anos não é sustentável. Mercado eventualmente rejeita retornos não viáveis. Estrutura colapsa quando novos depósitos param de chegar.
BioMM, através de comunicado datado 20 de julho de 2026, esclareceu sua posição. Empresa negava “relação comercial” com Banco Master, afirmando que empréstimos foram contraídos por acionistas como pessoa física, não pela empresa. Comunicado indicava que Fundo Cartago (vinculado a Vorcaro, que se tornou acionista de BioMM em 2024) não ocupou assento no conselho de administração durante período em que foi acionista, até abril de 2026. BioMM reforçava “compromisso com transparência”.
Comunicado de BioMM evitava reconhecer aspecto central da controvérsia: se empréstimos eram meramente de pessoa física, independentes de BioMM, por que timing entre empréstimos, eleições ao conselho e alta de ações era tão apertado? Por que valores emprestados (R$ 336 milhões) excediam capital levantado pela empresa (R$ 217 milhões)? Comunicado respondia a alegação de relação comercial direta, não a suspeitas de conluio.
Questões permaneciam sem resposta clara em julho de 2026. Investigação da CVM sobre BioMM estava em andamento, prazos de conclusão não eram públicos. Investigação de Polícia Federal sobre esquema de Vorcaro focava principalmente em fraude bancária; não estava claro se PF havia aberto investigação específica sobre manipulação de ações em BioMM. Posição de conselheiros eleitos com apoio de Master em BioMM não era clara: permaneceriam em cargos durante investigação? Sofreriam inabilitação regulatória?
Cotação de ações de BioMM em julho de 2026 não foi localizada em fontes disponíveis. Último dado disponível era queda de 42% após alerta de sobrevalorização em abril 2024. Se padrão de recuperação parcial seguiu-se a queda inicial, cotação em julho 2026 poderia estar entre R$ 10 e R$ 12. Se mercado permanecia desconfiado de governança corporativa de BioMM, cotação poderia permanecer deprimida.
Caso de Banco Master e BioMM ilustra fragilidade de supervisão regulatória em tempo real. Banco Central identificou problemas em Master apenas em novembro de 2024, nove meses após operações suspeitas em BioMM. CVM identificou padrão de manipulação apenas após operações já consumadas. Poupadores que adquiriram ações de BioMM no pico de especulação sofreram perdas de capital. Depositantes em Master perderam acesso a fundos bloqueados em liquidação.