No mesmo mês em que a Polícia Federal apontou R$ 832 milhões em danos ambientais causados por empresas ligadas a Lucas Kallas na Serra do Curral, área tombada de Belo Horizonte, o Grupo Cedro — do mesmo empresário — assinou com o governo federal uma concessão portuária no Rio de Janeiro com investimento projetado de R$ 3,6 bilhões. Era março de 2025.
Poucos dias antes da deflagração da operação policial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia elogiado Kallas publicamente: “descobri que estava falando com um empresário sério”, conforme registrou a Agência Pública em reportagem de abril de 2025.
Kallas, 46 anos, empresário mineiro fundador do Grupo Cedro, acumula quatro investigações federais em 17 anos. A primeira data de 2008. A mais recente, de setembro de 2025, envolve um esquema de mais de 40 empresas com potencial econômico superior a R$ 18 bilhões e resultou em 22 mandados de prisão preventiva. Em nenhuma das quatro houve condenação definitiva.
Os casos mais graves chegaram ao Supremo Tribunal Federal em 2026. Lá, o processo de Kallas tem a defesa assinada pela esposa e pelos filhos do ministro Alexandre de Moraes. O relator designado é o ministro Dias Toffoli — que, no caso anterior relacionado ao mesmo esquema, decretou sigilo máximo sobre os autos e ordenou a libertação dos investigados presos preventivamente. Os autos permanecem fechados.
Um empresário de Minas Gerais com acesso ao Planalto
Lucas Prado Kallas construiu o Grupo Cedro ao longo de duas décadas, com base no setor de mineração de Minas Gerais — estado responsável por cerca de 70% da produção brasileira de minério de ferro. As empresas do grupo atuam em mineração, logística, infraestrutura e participações: as principais são a Cedro Participações, a Cedro Mineração, a Green Metals Soluções Ambientais e a Extrativa Mineral. Por meio da Green Metals, o grupo adquiriu em 2016 o controle da Empresa de Mineração Pau Branco, a Empabra — mineradora que opera desde os anos 1980 em área de proteção ambiental no entorno da Serra do Curral e que está no centro das investigações mais recentes.
O perfil público de Kallas é o de um empresário voltado a práticas de ESG — sigla em inglês para responsabilidade ambiental, social e de governança (Environmental, Social and Governance). A Green Metals carrega esse posicionamento no próprio nome. Kallas participa de eventos do setor financeiro e de infraestrutura, frequenta o Fórum Esfera Brasil e circula por Brasília com regularidade. Conforme levantamento publicado pela newsletter A Investigação em março de 2026, Kallas teve ao menos sete acessos documentados ao Palácio do Planalto entre 2023 e 2024.
Em maio de 2023, foi indicado para integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o CDESS, órgão consultivo da Presidência da República conhecido informalmente como “Conselhão”. Criado no início do governo Lula, o conselho reúne empresários, líderes sociais e representantes de diferentes setores em um fórum de diálogo com o Executivo. A participação confere acesso regular ao Palácio e interlocução direta com ministros.
A proximidade com o presidente Lula ficou pública em fevereiro de 2025, quando Kallas participou de uma cerimônia no Planalto. “Descobri que estava falando com um empresário sério”, disse Lula, conforme registrou a Agência Pública. Na mesma semana, em 21 de fevereiro de 2025, o Grupo Cedro assinou a concessão do Terminal ITG-02 no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, com investimento projetado de R$ 3,6 bilhões para movimentação de minerais sólidos, segundo a BPMoney. A empresa também venceu concessão ferroviária para construção de linha ligando Minas Gerais ao mesmo porto, avaliada em R$ 1,5 bilhão. As duas concessões foram assinadas enquanto ao menos uma investigação policial sobre o grupo estava em andamento — mas antes de se tornar pública.
Antes de construir o Grupo Cedro, Kallas teve passagem anterior pelo mundo dos negócios que já resultou em investigação federal. Em 2008, foi alvo da Operação João de Barro, da Polícia Federal, que investigou fraudes em licitações de obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. A operação resultou em ações de improbidade administrativa no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, conforme a A Investigação. As ações não resultaram em condenação definitiva.
Em 2019, Kallas foi mencionado nas apurações da CPI de Brumadinho, instaurada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais após o rompimento da barragem da Vale que matou 272 pessoas. A CPI investigou, entre outros pontos, o aproveitamento econômico dos rejeitos da barragem B1, área sobre a qual o grupo de Kallas também orbitava. Conforme a A Investigação, o relatório final da comissão mencionou o empresário no contexto das disputas por esses ativos minerais.
Em 2020, Kallas voltou a ser alvo de investigação — desta vez pela Polícia Civil de Minas Gerais. A Operação Ouro Negro apurou extração irregular de minério em área de proteção ambiental em Nova Lima, mesma cidade que concentra parte das operações da Serra do Curral. A investigação foi encerrada sem condenação definitiva, segundo a A Investigação. Kallas nega as irregularidades apontadas.
A Comissão de Valores Mobiliários, a CVM — órgão que regula o mercado de capitais no Brasil —, também abriu quatro processos administrativos contra Kallas por negociações atípicas de ações. Os processos envolvem operações com papéis da Biomm, empresa farmacêutica da qual Kallas era um dos principais acionistas, conforme a A Investigação. Negociações “atípicas”, na linguagem da CVM, referem-se a movimentações que, pela sua concentração, timing ou volume, levantam suspeitas sobre o uso de informações privilegiadas ou sobre tentativas de manipulação de mercado. Kallas não foi condenado em nenhum dos processos até o fechamento desta reportagem.
Além da mineração, Kallas também construiu presença no setor financeiro e farmacêutico por meio de sua sociedade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Os dois se tornaram sócios na Biomm, empresa de biotecnologia farmacêutica que produz insulina e outros medicamentos biológicos. A Biomm fechou contratos com o Sistema Único de Saúde avaliados em R$ 303,6 milhões em 2025, segundo a A Investigação. Kallas também chegou a deter cerca de 8% das ações da Biomm, ao lado de outros nomes de peso: o BTG Pactual tinha aproximadamente 9,7% e o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia detinha fatia similar.

Lucas Kallas e Daniel Vorcado também foram sócios na Latache Capital, gestora de investimentos fundada por Renato Azevedo com foco em crédito distressed — operações em empresas com dívida problemática — e ativismo societário. A Latache chegou a gerir cerca de R$ 4 bilhões em ativos e protagonizou disputas em companhias como Usiminas e Oncoclínicas, conforme a InvestNews em reportagem de abril de 2026. Kallas detinha 33,3% da gestora.
Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Nos meses seguintes, Kallas foi desfazendo as sociedades públicas com Vorcaro: saiu da Biomm por “reorganização de investimentos”, e em 28 de abril de 2026 vendeu sua participação na Latache Capital, segundo a InvestNews.
A Serra do Curral e a Operação Parcours
A Serra do Curral é uma das formações geológicas mais antigas de Belo Horizonte e um dos símbolos visuais da capital mineira. Avistada do centro da cidade, a serra é composta por rochas do período Arqueano, com mais de 2,5 bilhões de anos. Sob essas rochas, há grandes jazidas de minério de ferro. A disputa entre preservação ambiental e exploração econômica marcou a história da área durante décadas.
O município de Belo Horizonte tombou a Serra do Curral em 1983. A União a tombou em 2008. Mesmo com essas proteções, a legislação brasileira não proibiu completamente a mineração nas áreas que já tinham concessões anteriores ao tombamento — criando uma zona de tensão permanente entre os direitos minerários existentes e as restrições ambientais supervenientes.
A Empresa de Mineração Pau Branco, a Empabra, opera na área desde a década de 1980. Com o tombamento federal de 2008, o Ministério Público de Minas Gerais firmou com a empresa um Plano de Recuperação Ambiental de Área Degradada — o PRAD. O documento estabelecia os limites da operação: a Empabra poderia continuar minerando em um perímetro restrito, mas deveria simultaneamente recuperar as áreas já degradadas, respeitar os limites autorizados e não expandir a extração para novas frentes. O PRAD foi aprovado pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente.
Em 2016, a Green Metals Soluções Ambientais — empresa do grupo controlado por Kallas — adquiriu o controle da Empabra. A partir daí, conforme a investigação da Polícia Federal concluiu em 2025, o PRAD teria deixado de funcionar como um instrumento de recuperação e passado a funcionar como uma fachada de regularidade: enquanto os documentos indicavam cumprimento dos protocolos, a extração de minério teria avançado para além dos limites autorizados, destruindo nascentes, contaminando o lençol freático e movimentando volumes de minério muito superiores ao permitido.
Em 28 de março de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Parcours. De acordo com a nota oficial da corporação, o laudo pericial da PF calculou os danos ambientais causados pela extração irregular em R$ 832 milhões — valor equivalente a quase dois anos do orçamento do município de Nova Lima, cidade onde parte das operações ocorria. O lucro irregular estimado com a extração fora dos limites chega a R$ 708 milhões, segundo apuração da A Investigação. A PF descreveu a situação encontrada na área como “devastação completa”, conforme a Agência Pública.
O esquema investigado teria contado com cooperação de servidores da Agência Nacional de Mineração, a ANM — órgão federal responsável pela regulação e fiscalização do setor. Dois funcionários foram identificados como suspeitos de facilitar as irregularidades em troca de pagamentos.
Leandro Cesar Ferreira de Carvalho, gerente regional da ANM em Minas Gerais, é suspeito de ter atuado para garantir a continuidade das operações irregulares. Conforme a Agência Pública, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o COAF, identificaram movimentações financeiras suspeitas: a esposa de Carvalho recebeu R$ 2 milhões em dinheiro vivo entre dezembro de 2020 e janeiro de 2025 — período que coincide com as fases mais intensas da extração investigada. O segundo funcionário, Claudinei Oliveira Cruz, superintendente substituto de segurança de barragens da ANM, movimentou R$ 1,1 milhão entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023. A esposa de Cruz realizou ainda cerca de R$ 170 mil em pagamentos de loteria em 2024, segundo a Agência Pública. Os dois foram exonerados no dia 1º de abril de 2025, quatro dias após a deflagração da operação.
A CGU — Controladoria-Geral da União — realizou auditoria complementar e confirmou que a extração havia avançado além dos limites autorizados enquanto os documentos apresentados pela Empabra à ANM indicavam cumprimento dos protocolos ambientais. A CGU integrava a força-tarefa da Operação Parcours.
Lucas Kallas foi incluído na investigação como suspeito de ter participado da estruturação do esquema. A defesa do empresário sustenta que ele foi sócio-investidor da Green Metals entre 2012 e maio de 2018 — portanto, antes de a empresa adquirir a Empabra em 2016 —, sem nunca ter ocupado cargo de gestão na mineradora. Kallas afirma que, até a data de sua saída, as atividades eram regulares e com as autorizações vigentes, e que os fatos investigados são, em sua maioria, posteriores ao seu desligamento.
A linha do tempo apresenta ao menos uma contradição documentada. A CGU confirmou atividade irregular em período anterior a 2018, enquanto Kallas ainda era sócio. A PF investiga o intervalo completo de 2014 a 2025 — o que abrange tanto os anos em que Kallas detinha participação quanto a fase seguinte, já sem sua presença formal na estrutura societária. Kallas apresentou ações judiciais para ter seu nome retirado da investigação; até o fechamento desta reportagem, as ações não haviam sido decididas.
A Operação Rejeito: o esquema de R$ 18 bilhões
Se a Operação Parcours revelou um esquema de extração ilegal em uma área específica, a Operação Rejeito, que também investiga Lucas Kallas, deflagrada cinco meses depois, apontou para uma organização criminosa de alcance incomparavelmente maior.
Em 17 de setembro de 2025, Polícia Federal, CGU, Ministério Público Federal e Receita Federal agiram de forma coordenada em Minas Gerais. De acordo com a nota oficial da PF, foram cumpridos 79 mandados de busca e apreensão e 22 mandados de prisão preventiva — entre os maiores números de uma operação de combate à corrupção no setor de mineração na história do país. A operação bloqueou R$ 1,5 bilhão em ativos.
A investigação identificou um conglomerado de mais de 40 empresas suspeitas de atuar de forma coordenada para fraudar o licenciamento ambiental de empreendimentos de mineração em Minas Gerais. O lucro estimado com as ações criminosas supera R$ 1,5 bilhão, e o potencial econômico total dos projetos em andamento vinculados ao grupo investigado foi avaliado em mais de R$ 18 bilhões, conforme a nota oficial da PF. Para ter uma referência de escala: R$ 18 bilhões equivalem a aproximadamente 60% do orçamento anual da Secretaria de Saúde do estado de Minas Gerais.
Os crimes investigados incluem danos ao meio ambiente, usurpação de bens da União, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e embaraçamento à investigação de organização criminosa.
O nome de Lucas Kallas aparece em um organograma manuscrito apreendido durante a Operação Rejeito. Conforme a Agência Pública em reportagem de março de 2026, o documento mapeia as relações internas da organização investigada. No mesmo organograma consta o nome do presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco. As fontes disponíveis não indicam que Pacheco seja alvo da investigação ou que sua presença no documento tenha resultado em desdobramentos formais.
A Operação Rejeito investigou especificamente um esquema de concessão fraudulenta de licenças ambientais para mineração em áreas protegidas — uma versão ampliada, com mais atores e mais dinheiro, do mesmo mecanismo investigado na Parcours: servidores públicos corrompidos, empresas que operam em desacordo com seus planos de recuperação ambiental e exploração comercial de áreas cuja proteção legal é, na prática, burlada.
O STF, o sigilo máximo e as decisões de Toffoli
Os casos mais graves envolvendo Lucas Kallas chegaram ao Supremo Tribunal Federal em 2026. O que aconteceu depois de essa chegada é o ponto em que a investigação sobre o empresário converge com questões mais amplas sobre o funcionamento das instituições.
O processo de Kallas chegou ao STF em 2 de fevereiro de 2026. A petição inicial da defesa é assinada por Viviane Barci de Moraes, advogada e esposa do ministro Alexandre de Moraes, integrante da Corte. Também assinam a peça Alexandre Barci de Moraes e Giuliana Barci de Moraes, filhos do ministro. O relator designado para o caso foi o ministro Dias Toffoli.
A representação de Kallas por membros da família de um ministro da própria Corte onde o processo tramita não é um fato isolado na trajetória do empresário. Viviane Barci de Moraes também representa Daniel Vorcaro, sócio de Kallas na Biomm e na Latache Capital, em investigações decorrentes da Operação Parcours, conforme apuração da A Investigação. O escritório de advocacia da família Barci de Moraes havia sido contratado anteriormente pelo próprio Banco Master para uma disputa jurídica, segundo a mesma fonte. Assim, a advogada representa, no STF, dois investigados que são sócios entre si — e cujas investigações se entrelaçam.
O ministro Alexandre de Moraes não tem poder de influenciar diretamente os casos relatados por outro ministro, mas a representação de réus em processos que tramitam na Corte da qual o cônjuge é membro é objeto de debate sobre conflito de interesses institucional. O ministro não se pronunciou sobre o tema até o fechamento desta reportagem.
O ministro Dias Toffoli recebeu o caso da Operação Rejeito depois de argumentos sobre incompetência da instância ordinária para julgá-lo. No dia 19 de novembro de 2025, Toffoli ampliou o sigilo sobre os autos ao “grau máximo” — restrição que, num primeiro momento, limitou o acesso até mesmo para a Polícia Federal e para os advogados de defesa, conforme a Agência Pública. Em 20 de dezembro de 2025, o ministro ordenou a libertação de quatro investigados que estavam presos preventivamente: Alan Cavalcante, Helder Freitas, João Alberto Paixão Lages e Rodrigo de Melo Teixeira. Em 14 de janeiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 6ª Região seguiu as decisões de Toffoli e soltou os demais presos que não tinham foro privilegiado.
A Agência Pública registrou, em reportagem de março de 2026, que o gabinete de Toffoli alegou que o sigilo máximo tinha como objetivo a análise individual dos casos. O futuro das investigações, com os autos fechados e os investigados em liberdade, permanece incerto. Toffoli não respondeu aos questionamentos da Agência Pública.
Existe um paralelo que já foi documentado por diferentes veículos. O caso da holding J&F — empresa dos irmãos Batista, controladores da JBS — chegou ao STF em período em que Roberta Rangel, então cônjuge do ministro Toffoli, havia sido contratada pela J&F para uma disputa empresarial. À época, Toffoli se declarou impedido de julgar ações do conglomerado. Em dezembro de 2023, livre do impedimento formal, o ministro suspendeu uma multa de R$ 10,3 bilhões aplicada ao grupo J&F, conforme a Agência Pública. O padrão observado — família de ministro contratada por investigado, caso distribuído a Toffoli, decisões favoráveis ao investigado — é apontado por jornalistas e pesquisadores como uma recorrência digna de atenção, não como uma coincidência isolada.
O acesso ao poder e as concessões bilionárias
A trajetória de Kallas no período das investigações inclui um movimento paralelo: enquanto acumulava processos, o empresário expandia seu acesso ao governo federal e obtinha concessões públicas de grande porte.
A inclusão no CDESS em maio de 2023 foi o primeiro sinal visível dessa aproximação. O Conselhão funciona como canal de diálogo entre o Executivo e representantes da sociedade, e sua composição é definida pela Presidência da República. A participação garante acesso a reuniões periódicas com ministros e visibilidade junto à cúpula do governo.
Entre 2023 e 2024, Kallas realizou ao menos sete acessos documentados ao Palácio do Planalto, conforme a A Investigação. Participou do Fórum Esfera Brasil em agosto de 2023 e em junho de 2024 — evento que reúne empresários e políticos num formato de alto networking. Esteve na cerimônia de inauguração de uma fábrica da Biomm em Nova Lima, em abril de 2024, com presença do presidente. O empresário transitava entre os mundos da mineração, das finanças e da política com uma naturalidade que poucos empresários do setor exibem em Brasília.

O ponto de inflexão foi fevereiro de 2025. Em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Lula elogiou Kallas de forma explícita: “descobri que estava falando com um empresário sério”. O elogio foi feito poucos dias antes da Operação Parcours. No dia 21 daquele mesmo mês, o Grupo Cedro assinou a concessão do Terminal ITG-02 no Porto de Itaguaí, um dos maiores portos públicos do Brasil em volume de cargas. O terminal terá capacidade para movimentar cargas de minerais sólidos com investimento projetado de R$ 3,6 bilhões, conforme a BPMoney. A concessão ferroviária Minas-Rio, com valor estimado de R$ 1,5 bilhão, também foi assegurada no mesmo período.
As duas concessões somam R$ 5,1 bilhões em contratos com o poder público. O governo federal não se pronunciou sobre a coincidência temporal entre a assinatura dos contratos e as investigações em andamento.
Cinco meses depois do elogio presidencial, a situação se inverteu discretamente. Em agosto de 2025, após a Operação Parcours ter se tornado pública, Kallas não foi reconduzido ao Conselhão quando o mandato venceu. A decisão foi oficializada em decreto presidencial publicado no Diário Oficial da União, sem explicação pública sobre os motivos. O governo não fez nenhuma declaração relacionando o afastamento às investigações.
As concessões assinadas permaneceram vigentes.
A ANM, o PSD e as doações da irmã
A relação entre Lucas Kallas e o Ministério de Minas e Energia tem uma dimensão que vai além das investigações: envolve o fluxo documentado de dinheiro da família Kallas para o partido que controla a pasta.
Desde janeiro de 2023, o Ministério de Minas e Energia é comandado pelo senador Alexandre Silveira, filiado ao PSD. A Agência Nacional de Mineração — responsável por regular, fiscalizar e conceder autorizações no setor em que o Grupo Cedro opera — é subordinada ao MME. Várias reportagens descrevem Silveira como próximo a Kallas; a documentação primária formal dessa relação não foi tornada pública até o momento.
O vínculo documentado é financeiro, e passa pela irmã do empresário. Francine Prado Kallas é sócia de Lucas em pelo menos sete empresas, integra o conselho da Cedro Participações e figura como doadora política recorrente, conforme a A Investigação. Dados eleitorais levantados pelo Observatório da Mineração em reportagem de junho de 2026 mostram que, entre 2018 e 2024, Francine realizou doações eleitorais que somam aproximadamente R$ 2,6 milhões. O maior volume foi direcionado ao PSD: R$ 990 mil ao diretório nacional do partido em 2022 — ano em que Alexandre Silveira era candidato a senador por Minas Gerais — e R$ 1 milhão ao diretório estadual do PSD em São Paulo em 2024.
No mesmo período, a diretoria da ANM tomou uma decisão que beneficiou diretamente uma empresa inserida na rede societária de Francine Kallas. Em 2012, a agência havia cassado a licença de pesquisa mineral de uma área em Nova Lima, Minas Gerais, por inadimplência no pagamento de taxa anual. A cassação era uma decisão técnica, baseada no descumprimento de obrigação administrativa. Em 2024, porém, a diretoria da ANM reverteu esse parecer. O voto que liderou a reversão foi do diretor Caio Mário Trivellato Seabra Filho, que argumentou que o processo original apresentou nulidade por falhas procedimentais, segundo o Observatório da Mineração.
A reversão permitiu a transferência dos direitos minerários para a Extrativa Mineral S.A. — empresa que, de acordo com o mesmo levantamento, está inserida em uma rede societária compartilhada com Francine Kallas, que também integra empresas com Carlos Adel de Freitas, diretor da Extrativa. A área em questão tem potencial estimado de 860 mil toneladas de minério de ferro, em uma das regiões com maior valor minerário de Minas Gerais.
O Ministério de Minas e Energia não respondeu aos questionamentos do Observatório da Mineração sobre a relação do ministro Silveira com os envolvidos ou sobre os mecanismos de integridade adotados para prevenir conflitos de interesse. A ANM também não respondeu sobre os critérios que fundamentaram a reversão do parecer técnico.
Venezuela, Latache e o banco
Além das investigações em mineração, a trajetória de Kallas nos últimos anos contém dois episódios que as fontes documentam mas não explicam completamente: as viagens à Venezuela e a eventual busca por autorização bancária.
O primeiro envolve a Venezuela, país sob sanções internacionais impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia em razão do regime de Nicolás Maduro, e que mantém relações tensas com boa parte da comunidade financeira global. Apesar das sanções, a Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 300 bilhões de barris pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP. O país também possui reservas significativas de minério de ferro e bauxita na região do Orenoco, exploradas pela Corporación Venezolana de Guayana, a CVG. Para investidores dispostos a operar nesse ambiente de risco político e regulatório elevado, as oportunidades de retorno são proporcionalmente altas.
Em novembro e dezembro de 2023, Lucas Kallas e Daniel Vorcaro viajaram juntos a Caracas. Conforme apuração da A Investigação, os dois foram tratar de oportunidades no setor petrolífero venezuelano. A hospedagem dos dois no mesmo hotel está documentada: o registro de estadia apurado pela newsletter apontou gastos de US$ 23 mil na viagem. Em 4 de dezembro de 2023, logo após o retorno, Kallas e Vorcaro estiveram juntos no Palácio do Planalto, conforme os registros de visitas consultados pela A Investigação.
Kallas nega que tenha realizado investimentos na Venezuela. A negação é confrontada pelos registros de voo do avião de matrícula PP-COA, identificado pela A Investigação como de uso do empresário. Em junho de 2024, o PP-COA realizou a rota Brasília–Caracas–Miami–Bahamas — um trajeto que combina a capital venezuelana com os Bahamas, jurisdição frequentemente associada a estruturas de planejamento patrimonial offshore. Em 28 de janeiro de 2025, o mesmo avião saiu de Ciudad Guayana — polo industrial e minerador situado na confluência dos rios Orenoco e Caroní, onde a Venezuela concentra seus projetos estratégicos de mineração de ferro — com destino a Caracas. A rota de janeiro de 2025 é relevante pelo ponto de partida: Ciudad Guayana não é uma cidade turística nem um hub financeiro, e a chegada de um avião particular brasileiro a essa localidade específica tem uma explicação setorial mais restrita.
O segundo episódio envolve o setor financeiro. O jornalista Guilherme Amado reportou, em matéria publicada pelo BNews em junho de 2026, que Kallas estaria se movimentando para obter autorização do Banco Central para operar uma instituição financeira própria. A iniciativa teria preocupado agentes do mercado financeiro, em razão da proximidade anterior de Kallas com o ecossistema do Banco Master. A assessoria do empresário afirmou que ele “não solicitou licença para operar como banco nem buscou autorização junto ao Banco Central do Brasil.”
O contexto em que esse episódio emerge é relevante. O Banco Master entrou em liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. A Latache Capital, da qual Kallas detinha 33,3%, comprou R$ 125 milhões em cotas do fundo Hans II, estrutura identificada pela Receita Federal como parte de um mecanismo de inflação patrimonial artificial do Banco Master, segundo apuração da InvestNews. O fundo Hans II também concentrou, de acordo com a Receita, cerca de R$ 1,2 bilhão de recursos de Daniel Vorcaro. Com o colapso do Master, o valor das cotas do Hans II detidas pela Latache — e, por extensão, por Kallas — chegou a ser zerado.
Kallas vendeu sua participação na Latache em 28 de abril de 2026, segundo a InvestNews. A operação de saída ocorreu menos de seis meses após a liquidação do banco de seu sócio.
O contraditório
As posições públicas de Lucas Kallas sobre as investigações foram recolhidas por diferentes veículos de imprensa ao longo dos últimos dois anos.
Sobre a Operação Parcours, Kallas afirma que sua inclusão na investigação é “completamente descabida” e sustenta que nunca exerceu função de gestão na Empabra. Sua defesa argumenta que os fatos investigados ocorreram, em grande parte, após seu desligamento formal da Green Metals em maio de 2018. Kallas entrou com ações judiciais para retirar seu nome da investigação.
Sobre a Operação Rejeito, não há declaração pública específica registrada nas fontes disponíveis. Sobre a Venezuela, o empresário nega investimentos no país. Sobre a Latache e o Banco Master, a assessoria confirmou a venda da participação como “reorganização de investimentos”. Sobre a eventual licença bancária, a assessoria nega o pedido.
Em entrevista à CNN Brasil, citada pela A Investigação, Kallas afirmou atuar sempre “como investidor, sem interferir nas decisões” das empresas. É a mesma posição que adota formalmente nas investigações: investidor passivo que não pode ser responsabilizado pela gestão de empresas que apenas capitalizou.
O que ainda não se sabe
A investigação sobre Lucas Kallas tem, até o momento, mais perguntas abertas do que respostas definitivas.
O conteúdo integral do processo que tramita no STF sob sigilo máximo de Toffoli é, por definição, inacessível. O que exatamente está sendo investigado no âmbito da Operação Rejeito que chegou à Corte — quais empresas, quais fatos, quais provas — permanece fechado para o público e, em diferentes momentos, até para as partes processuais.
O desfecho das ações movidas por Kallas para se retirar das Operações Parcours e Rejeito nos tribunais regionais ainda não foi definido. O eventual pedido de licença bancária ao Banco Central não foi confirmado nem descartado oficialmente. A investigação sobre os voos à Venezuela e o conteúdo concreto das negociações realizadas no país não foi tornada pública. A presença do nome de Rodrigo Pacheco no organograma apreendido não teve desdobramento formal publicado até agora.
Quatro investigações federais em 17 anos. Nenhuma condenação definitiva. Concessões bilionárias do governo federal assinadas no mesmo período. Casos distribuídos ao mesmo relator que os silenciou com sigilo máximo. Essa combinação de fatos — cada um deles, isolado, com uma explicação possível — é, em conjunto, o dado central desta reportagem.